O palco funcionando como extensão espaço-temporal do pensamento.
Não da maneira como se deu no teatro expressionista, na extroversão de
sentimentos de um “eu” tomado em plena crise. O palco, sim, tentando mimetizar
o próprio funcionamento do cérebro e dando lugar a estados alterados
do ser. Essa foi a proposta de Thais D´Abronzo que trouxe para seu grupo os
relatos clínicos do neurocientista Oliver Sacks. Este fala de pessoas com
alguma deficiência neurológica e mostra sua luta corajosa para tornar a vida
possível apesar de seu mal: todas essas pessoas estão
invariavelmente empenhadas em obter a cura, ou ao menos, a atenuação de seu
sofrimento, ou então alguma forma de acomodação à chamada “vida normal”. E meu
trabalho foi o de escrever certos textos para determinadas cenas, às vezes
apenas adaptando o próprio texto de Sacks ou então sugerindo um conhecido
fragmento de Beckett. Pude observar o trabalho visceral e extenuante dos atores
e atrizes conduzidos pela mão decidida e exigente de Thais sempre os desafiando
para que se superassem a cada ensaio, em todos os momentos (confesso que às
vezes até tive pena deles!) Colocar-se integralmente no trabalho, concentrar
todas as forças, selar um firme compromisso com todos os elementos do grupo,
são estes os aspectos éticos de um estilo de trabalho no qual tive o privilégio
e o prazer em participar.
Heloisa Bauab