terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Texto de Heloisa Bauab

O palco funcionando como extensão espaço-temporal do pensamento. Não da maneira como se deu no teatro expressionista, na extroversão de sentimentos de um “eu” tomado em plena crise. O palco, sim, tentando mimetizar o próprio funcionamento do cérebro e dando lugar a estados  alterados do ser. Essa foi a proposta de Thais D´Abronzo que trouxe para seu grupo os relatos clínicos do neurocientista Oliver Sacks. Este fala de pessoas com alguma deficiência neurológica e mostra sua luta corajosa para tornar a vida possível apesar de seu mal: todas essas pessoas  estão invariavelmente empenhadas em obter a cura, ou ao menos, a atenuação de seu sofrimento, ou então alguma forma de acomodação à chamada “vida normal”. E meu trabalho foi o de escrever certos textos para determinadas cenas, às vezes apenas adaptando o próprio texto de Sacks ou então sugerindo um conhecido fragmento de Beckett. Pude observar o trabalho visceral e extenuante dos atores e atrizes conduzidos pela mão decidida e exigente de Thais sempre os desafiando para que se superassem a cada ensaio, em todos os momentos (confesso que às vezes até tive pena deles!) Colocar-se integralmente no trabalho, concentrar todas as forças, selar um firme compromisso com todos os elementos do grupo, são estes os aspectos éticos de um estilo de trabalho no qual tive o privilégio e o prazer em participar.


Heloisa Bauab