Apresentação
“ground control to Major Tom (10, 9, 8, 7)
Commencing countdown, engines on (6, 5, 4, 3)
Check ignition, and may god’s love be with you (2, 1, liftoff)
(…)
Ground control to Major Tom,
Your circuit’s dead, there’s something wrong
Can you hear me Major Tom?
Can you hear me Major Tom?
Can you hear me Major Tom?
O universo de Oliver Sacks propôs e encontrou inquietações
sensíveis nos sujeitos desse grupo. Digo universo, mas prefiro dizer mundos,
por simpatizar e referenciar o autor e sua obra, “O homem que confundiu sua
mulher com um chapéu” dividida em 4 mundos: o das perdas, dos transportes, dos
excessos e, o mundo dos simples. As histórias e aspectos de situações
trabalhadas em cena se conectam mais especificamente com essa obra. Mas de
início não partimos de texto algum. Antes interessava ver quem eram aquelas
pessoas individualmente e, no contexto de um grupo. Gostaria de ver outro tipo
de inquietação. Gostaria que ela fosse nervosa, impulsiva, muscular, orgânica.
A partir de então, as escolhas individuais de histórias, imagens e questões.
Uma das questões encontradas refere-se à narrativa
de Sacks. Seus relatos revelam condições e situações do sujeito humano em
relação à doença e, para além dela: “para devolver o sujeito humano ao centro –
o ser humano sofredor, torturado, em luta – devemos aprofundar um relato de
caso transformando-o em uma narrativa ou história; só então teremos um ‘quem’
além de um ‘o que’, uma pessoa real, um paciente, em relação à doença – em
relação ao físico.”[3] Nos
interessou então revelar no corpo, a luta, o assombro, o horror das panes
cerebrais e mentais; em especial, as relativas ao “mundo dos excessos”,
no qual a característica da doença não está na perda ou déficit, e sim no
hiper, na superexcitação dos sentidos, da percepção e da personalidade.
Características que de acordo com Sacks, “apresentam uma fisiologia humana que
não deu certo”. Para além dos excessos, rondamos as características de outros
dois mundos. O “mundo dos simples”, e a visão do humano
desorientado: rico no imaginário mas, sem a mínima capacidade abstrata e
proposicional do mundo. São aqueles cujas vidas permanecem enclausuradas em
seus pensamentos. São os estonteados, também conhecidos por retardados, tolos e
estúpidos... Por fim, as visões, delírios, sonhos e reminiscências do “mundo
dos transportes”. Nesse caso, temos aspectos de uma percepção mental
alterada e, em trânsito desconexo entre realidades e sonhos, lembranças, visões
do além; são sintomas muitas vezes admitidos como algo espiritual ou místico,
dificilmente vistos como algo médico e de origem orgânica. Em relação a
característica dos transportes, Sacks nos revela uma bela metáfora do cérebro,
emprestada de Sherrington: o ‘tear encantado’, quando o cérebro “pode tecer um
tapete mágico para nos transportar” por entre tempos e espaços distintos e não
reconhecidos.
Assim, recolhemos, investigamos e descobrimos
materiais: nas situações e figuras desses mundos e, também, nas características
imagéticas, sonoras e desconexas de uma pane cerebral; na perda do controle; na
falha do organismo. Como espaço, uma espécie de floresta cerebral habitada por
figuras que transitam por entre aspectos reconhecíveis e estranhos do nosso
imaginário e memória. A presença do show e do horror se deve a uma espécie de
lupa que amplia e evidência o choque, a inadequação e o desespero do organismo
em luta por encontrar ou manter, alguma forma de vida.
pós-escrito
Não poderia deixar de registrar aqui um aspecto
desse processo, anterior a cena e, para além dela. A inquietação que intuitivamente
eu quis dividir no início desse trabalho encontrou gente no caminho. Admirei a
entrega, o reconhecimento de potências de vida e vínculos, que o espaço de um
trabalho estúpido como o nosso é capaz de revelar e estabelecer. Gostei de
reconhecer em muitos momentos, a postura de quem persegue os modos de trabalho
com o ofício no compromisso inevitável de se colocar em jogo. Obrigada.
Thais D’Abronzo
[3] Sacks,
Oliver. O Homem que confundiu sua mulher com um chapéu.
Ficha Técnica
Direção: Thais D’Abronzo
Colaboração em dramaturgia e participação especial: Heloisa Bauab
Estúpidos: Camila
Talevi, Camila Fontes, Débora Mille, Guilherme Mantovani, Jessiara Menezes Lorena, Juliana do
Espírito Santo, Kátia Maffi, Manu Arruda, Mariana Pinhata, Rachel Trambaioli, Renata Santana e Vitória Andrade.
Desenho e operação de luz: Lucas Pinheiro, Antônio Rodrigues.
Fotografia e arte: Camila
Fontes
Trechos do filme “Mister
Lonely” de Harmony Korine
Sinopse
O espetáculo traz a revelação da luta, do assombro, do horror das panes cerebrais e mentais por meio dos indivíduos-atores. O palco, então, procura mimetizar o próprio funcionamento de cérebro e dá lugar a estados alterados do ser. O universo do neurocientista Oliver Sacks é um dos pontos de partida desse trabalho. Seus relatos revelam condições e situações do sujeito humano em relação à doença e, para além dela. A cena de “Estúpido” pode ser reconhecida num mixer de aspectos teatrais e performáticos: na postura e condução de seus sujeitos - atores e atrizes -, na incansável ação de revelar suas estranhadas formas artificiais e, ao vivo, destruílas. A presença do show e do horror se deve a uma espécie de lupa que amplia e evidência o choque, a inadequação e o desespero do organismo em luta por encontrar ou manter, alguma forma de vida. Fluxo vivo e em processo.
Informações Técnicas
Som: Mesa de som 8 canais, com entrada para computador (P2-RCA).
1 microfone ( de preferência sem fio).
Luz: 10 pares
4 PCs
3 elipso
8 pés de galinha
2 íris
2 torres.
Mapa de Áudio e Vídeo
O espetáculo tem capacidade de
público limitada a aproximadamente 60 pessoas, o que pode variar de acordo com
cada espaço de apresentação.
Este espetáculo estreou no dia 30 de novembro, na Casa de
Cultura - Divisão de Artes Cênicas da UEL.
Londrina/PR




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