Estúpido



Apresentação



Ao propor a leitura dos relatos clínicos de Oliver Sacks, quis dividir algo valioso pra mim: Oliver Sacks, inquieta e espanta minha percepção sobre as coisas. Sobre os trânsitos nebulosos entre realidade e ficção/horror/delírio das coisas. Sobre noções imprecisas e distintas de realidade e de normalidade. E especialmente, sobre o modo como a vida precisa ser reencontrada quando atravessada por um distúrbio (“perturbação do sossego. travessura.”) ou doença (“[figurado] coisa que incomoda. = mal”). Seus relatos, entre o científico e o romântico, revelam aspectos de “um único organismo, o sujeito humano”[1], e seus trânsitos/choques/relações/adaptações entre cérebro-pensamento-corpo e identidade pessoal. Agrada-me a perplexidade de Sacks na atitude de um observador atento e detalhista, que constantemente se espanta na busca por entender o que se passa. O que se passa? De quem se trata? Do que? Como isso acontece? Como é possível? Can you hear me Major Tom?:

“ground control to Major Tom (10, 9, 8, 7)
Commencing countdown, engines on (6, 5, 4, 3)
Check ignition, and may god’s love be with you (2, 1, liftoff)
(…)
Ground control to Major Tom,
Your circuit’s dead, there’s something wrong
Can you hear me Major Tom?
Can you hear me Major Tom?
Can you hear me Major Tom?
Can you…”[2]

O universo de Oliver Sacks propôs e encontrou inquietações sensíveis nos sujeitos desse grupo. Digo universo, mas prefiro dizer mundos, por simpatizar e referenciar o autor e sua obra, “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu” dividida em 4 mundos: o das perdas, dos transportes, dos excessos e, o mundo dos simples. As histórias e aspectos de situações trabalhadas em cena se conectam mais especificamente com essa obra. Mas de início não partimos de texto algum. Antes interessava ver quem eram aquelas pessoas individualmente e, no contexto de um grupo. Gostaria de ver outro tipo de inquietação. Gostaria que ela fosse nervosa, impulsiva, muscular, orgânica. A partir de então, as escolhas individuais de histórias, imagens e questões.
Uma das questões encontradas refere-se à narrativa de Sacks. Seus relatos revelam condições e situações do sujeito humano em relação à doença e, para além dela: “para devolver o sujeito humano ao centro – o ser humano sofredor, torturado, em luta – devemos aprofundar um relato de caso transformando-o em uma narrativa ou história; só então teremos um ‘quem’ além de um ‘o que’, uma pessoa real, um paciente, em relação à doença – em relação ao físico.”[3] Nos interessou então revelar no corpo, a luta, o assombro, o horror das panes cerebrais e mentais; em especial, as relativas ao “mundo dos excessos”, no qual a característica da doença não está na perda ou déficit, e sim no hiper, na superexcitação dos sentidos, da percepção e da personalidade. Características que de acordo com Sacks, “apresentam uma fisiologia humana que não deu certo”. Para além dos excessos, rondamos as características de outros dois mundos. O “mundo dos simples”, e a visão do humano desorientado: rico no imaginário mas, sem a mínima capacidade abstrata e proposicional do mundo. São aqueles cujas vidas permanecem enclausuradas em seus pensamentos. São os estonteados, também conhecidos por retardados, tolos e estúpidos... Por fim, as visões, delírios, sonhos e reminiscências do “mundo dos transportes”. Nesse caso, temos aspectos de uma percepção mental alterada e, em trânsito desconexo entre realidades e sonhos, lembranças, visões do além; são sintomas muitas vezes admitidos como algo espiritual ou místico, dificilmente vistos como algo médico e de origem orgânica. Em relação a característica dos transportes, Sacks nos revela uma bela metáfora do cérebro, emprestada de Sherrington: o ‘tear encantado’, quando o cérebro “pode tecer um tapete mágico para nos transportar” por entre tempos e espaços distintos e não reconhecidos.
Assim, recolhemos, investigamos e descobrimos materiais: nas situações e figuras desses mundos e, também, nas características imagéticas, sonoras e desconexas de uma pane cerebral; na perda do controle; na falha do organismo. Como espaço, uma espécie de floresta cerebral habitada por figuras que transitam por entre aspectos reconhecíveis e estranhos do nosso imaginário e memória. A presença do show e do horror se deve a uma espécie de lupa que amplia e evidência o choque, a inadequação e o desespero do organismo em luta por encontrar ou manter, alguma forma de vida.

pós-escrito

Não poderia deixar de registrar aqui um aspecto desse processo, anterior a cena e, para além dela. A inquietação que intuitivamente eu quis dividir no início desse trabalho encontrou gente no caminho. Admirei a entrega, o reconhecimento de potências de vida e vínculos, que o espaço de um trabalho estúpido como o nosso é capaz de revelar e estabelecer. Gostei de reconhecer em muitos momentos, a postura de quem persegue os modos de trabalho com o ofício no compromisso inevitável de se colocar em jogo. Obrigada.


Thais D’Abronzo




[1] McKenzie, Ivy .
[2] David Bowie. Space Oddity.
[3] Sacks, Oliver. O Homem que confundiu sua mulher com um chapéu.





Ficha Técnica


Direção: Thais D’Abronzo
Colaboração em dramaturgia e participação especial: Heloisa Bauab
Estúpidos: Camila Talevi, Camila Fontes, Débora Mille, Guilherme Mantovani, Jessiara Menezes Lorena, Juliana do Espírito Santo, Kátia Maffi, Manu Arruda, Mariana Pinhata, Rachel Trambaioli, Renata Santana e Vitória Andrade.
Desenho e operação de luz: Lucas Pinheiro, Antônio Rodrigues.
Fotografia e arte: Camila Fontes

Trechos do filme “Mister Lonely” de Harmony Korine

Sinopse


O espetáculo traz a revelação da luta, do assombro, do horror das panes cerebrais e mentais por meio dos indivíduos-atores. O palco, então, procura mimetizar o próprio funcionamento de cérebro e dá lugar a estados alterados do ser. O universo do neurocientista Oliver Sacks é um dos pontos de partida desse trabalho.  Seus relatos revelam condições e situações do sujeito humano em relação à doença e, para além dela. A cena de “Estúpido” pode ser reconhecida num mixer de aspectos teatrais e performáticos: na postura e condução de seus sujeitos - atores e atrizes -, na incansável ação de revelar suas estranhadas formas artificiais e, ao vivo, destruílas. A presença do show e do horror se deve a uma espécie de lupa que amplia e evidência o choque, a inadequação e o desespero do organismo em luta por encontrar ou manter, alguma forma de vida. Fluxo vivo e em processo.


Informações Técnicas




                 Som: Mesa de som 8 canais, com entrada para computador (P2-RCA). 
1 microfone ( de preferência sem fio).  

Luz: 10 pares 
     4 PCs 
        3 elipso 
                     8 pés de galinha 
   2 íris 
        2 torres. 


Mapa de Áudio e Vídeo




Mapa de Luz


Mapa de Palco





O espetáculo tem capacidade de público limitada a aproximadamente 60 pessoas, o que pode variar de acordo com cada espaço de apresentação.
Este espetáculo estreou no dia 30 de novembro, na Casa de Cultura - Divisão de Artes Cênicas da UEL.
Londrina/PR



Nenhum comentário:

Postar um comentário