(ENTRE NÓS): A NOSSA “ALDEIA”
Da minha aldeia vejo
quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
Alberto
Caeiro
Nosso
encontro com os fantásticos relatos de Oliver Sacks aconteceu
especialmente pela tentativa de trabalhá-los em suas formas, muito mais do que
por uma investida em seus conteúdos.
Quando
então o neurologista se afirma como um “cientista romântico”, como um médico
que se preocupa e se interessa não só por doenças, mas acima de tudo por
pessoas, vejo a nós, integrantes desse processo e espetáculo “estúpidos”,
como “românticos artistas”, pois também trabalhamos como fatores essencialmente
humanos: nosso suor, nossos olhos, ossos, pele, músculos, cabelos,
dentes, salivas, trocas/relações, imaginação, mente, mas fatores estes que
extrapolaram o próprio humano, acabando por se tornarem primitivos.
Sackz
se atenta para o potencial criativo que as doenças podem disparar,
buscando trazer para o foco formas de vida nunca imaginadas, as quais vivem
numa constante necessidade de adaptação e de encontrar outros caminhos, na
maioria das vezes inusitados e inesperados. Assim nós nos portamos durante este
ano: diariamente “quebrando pedras” à procura de algo que acontecesse
involuntariamente: tremores que geravam, num processo vital fortíssimo,
inesperadas ações. Portanto trabalhamos com potencialidades e condições
extremadas que disparavam distintos humores.
Portanto
“estúpidos”, a meu ver, fomos este ano a beleza monstruosa, viva, pulsante e
verdadeira que destrói uma possível descrença em humanos que de tão humanos
passam a ser primitivos. Beleza esta que se tornava mais visível quanto mais
presentificadas fossem nossas relações afetuosas, de cumplicidade e cuidado, no
espaço do trabalho diário. Por isso, iniciei este modesto relato falando de uma
“aldeia”, que para mim se concretiza no que criamos: um local seguro para nos
dissecarmos, uns aos outros. E, por isso, finalizo com palavras de
G.K.Chesterton (apud SACKS, 2006, p.16):
A ciência é uma grande
coisa quando está a nossa disposição; no seu verdadeiro sentido, é uma das
palavras mais formidáveis do mundo. Mas o que pretendem esses homens, em nove
entre dez casos, ao pronunciá-la hoje? Ao dizer que a detecção é uma ciência?
Ao dizer que a criminologia é uma ciência? Pretendem colocar-se no exterior de
um homem e estuda-lo como se fosse um inseto gigante, sob o que chamariam de
luz severa e imparcial – e que eu chamaria morta e desumanizada. Pretendem
distanciar-se dele, como se ele fosse um remoto monstro pré-histórico, e fitar
a forma de seu “crânio criminoso” como se fosse uma espécie de sinistra
excrescência, como o chifre de um rinoceronte. Quando o cientista fala de um
tipo, nunca está se referindo a si mesmo, mas a seu vizinho, provavelmente mais
pobre. Não nego que a luz severa possa ser benéfica às vezes, embora, em certo
sentido, ela seja o oposto da ciência. Longe de converter-se em conhecimento,
ela é a supressão do que sabemos. É tratar um amigo como estranho e fazer com
que algo familiar pareça remoto e misterioso. É como dizer que o homem carrega
uma probóscide entre os olhos e que cai num estado de insensibilidade a cada 24
horas. Bem, o que você chama de “segredo” é exatamente o contrário. Não tento
me colocar do lado de fora do homem. Tento me colocar no seu interior.
Obrigada
a todos pelas possibilidades de encontros (entre nós)!
Referência:
SACKS, O. Um antropólogo em Marte : sete histórias
paradoxais. Trad. Bernardo Carvalho. São
Paulo; Companhia das letras, 2006.
Rachel Trambaioli
Nenhum comentário:
Postar um comentário