sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

texto de Rachel Trambaioli


                       (ENTRE NÓS): A NOSSA “ALDEIA”
   Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
   Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
   Porque eu sou do tamanho do que vejo
   E não, do tamanho da minha altura...
   Nas cidades a vida é mais pequena
   Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
   Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
   Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe 
   de todo o céu,
   Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos 
   nos podem dar,
   E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
                                    Alberto Caeiro

Nosso encontro com os fantásticos relatos de Oliver Sacks aconteceu especialmente pela tentativa de trabalhá-los em suas formas, muito mais do que por uma investida em seus conteúdos.
Quando então o neurologista se afirma como um “cientista romântico”, como um médico que se preocupa e se interessa não só por doenças, mas acima de tudo por pessoas, vejo a nós, integrantes desse processo e espetáculo “estúpidos”, como “românticos artistas”, pois também trabalhamos como fatores essencialmente humanos: nosso suor, nossos olhos, ossos, pele, músculos, cabelos, dentes, salivas, trocas/relações, imaginação, mente, mas fatores estes que extrapolaram o próprio humano, acabando por se tornarem primitivos. 
Sackz se atenta para o potencial criativo que as doenças podem disparar, buscando trazer para o foco formas de vida nunca imaginadas, as quais vivem numa constante necessidade de adaptação e de encontrar outros caminhos, na maioria das vezes inusitados e inesperados. Assim nós nos portamos durante este ano: diariamente “quebrando pedras” à procura de algo que acontecesse involuntariamente: tremores que geravam, num processo vital fortíssimo, inesperadas ações. Portanto trabalhamos com potencialidades e condições extremadas que disparavam distintos humores.
Portanto “estúpidos”, a meu ver, fomos este ano a beleza monstruosa, viva, pulsante e verdadeira que destrói uma possível descrença em humanos que de tão humanos passam a ser primitivos. Beleza esta que se tornava mais visível quanto mais presentificadas fossem nossas relações afetuosas, de cumplicidade e cuidado, no espaço do trabalho diário. Por isso, iniciei este modesto relato falando de uma “aldeia”, que para mim se concretiza no que criamos: um local seguro para nos dissecarmos, uns aos outros. E, por isso, finalizo com palavras de G.K.Chesterton (apud SACKS, 2006, p.16):

A ciência é uma grande coisa quando está a nossa disposição; no seu verdadeiro sentido, é uma das palavras mais formidáveis do mundo. Mas o que pretendem esses homens, em nove entre dez casos, ao pronunciá-la hoje? Ao dizer que a detecção é uma ciência? Ao dizer que a criminologia é uma ciência? Pretendem colocar-se no exterior de um homem e estuda-lo como se fosse um inseto gigante, sob o que chamariam de luz severa e imparcial – e que eu chamaria morta e desumanizada. Pretendem distanciar-se dele, como se ele fosse um remoto monstro pré-histórico, e fitar a forma de seu “crânio criminoso” como se fosse uma espécie de sinistra excrescência, como o chifre de um rinoceronte. Quando o cientista fala de um tipo, nunca está se referindo a si mesmo, mas a seu vizinho, provavelmente mais pobre. Não nego que a luz severa possa ser benéfica às vezes, embora, em certo sentido, ela seja o oposto da ciência. Longe de converter-se em conhecimento, ela é a supressão do que sabemos. É tratar um amigo como estranho e fazer com que algo familiar pareça remoto e misterioso. É como dizer que o homem carrega uma probóscide entre os olhos e que cai num estado de insensibilidade a cada 24 horas. Bem, o que você chama de “segredo” é exatamente o contrário. Não tento me colocar do lado de fora do homem. Tento me colocar no seu interior.

Obrigada a todos pelas possibilidades de encontros (entre nós)! 

Referência:
SACKS, O. Um antropólogo em Marte : sete histórias paradoxais. Trad. Bernardo Carvalho.  São Paulo; Companhia das letras, 2006.                                       

Rachel Trambaioli  

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