Era uma vez uma criatura sublime que vivia em uma casca
grotesca. Gostava de observar a natureza, brincava com os pássaros (que dela,
tinham medo), sentir o perfume das flores, era uma poesia viva, CONCRETA.
Capinha – Ela está em algum lugar, pra mim, pra eu poder
brincar. É só observá-la um pouquinho, pegá-la com toda a delicadeza que eu
posso ter e muito cuidado pra não estragar, pois essa capinha é extremamente
delicada e, nada de errado pode acontecer... Mas eu sou errada, quer dizer...
CUIDADO!
Agora, basta amarrar no pescoço e VOAR!
Observe, ela tem flores, é macia e gostosa, tem uma textura
leve, leve demais!
Ahhhhhh, eu vou flutuarr.... não vou.. sou grotesca, grande
e gorda mas eu danço!
Eu danço até muito bem ...
Tem alguém falando alguma coisa, eu ouço algo além dos pássaros, da água...
uma voz...lá de longe ou talvez não tão longe assim, SIM! Tem alguém falando
alg...
RETARDADA, DÉBIL MENTAL, RIDÍCULA, TOLA, ESTÚPIDA!
PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
(aparelho de hospital)
Sinto uma fenda no espaço, um momento de “desaparecimento
espiritual” onde o que fica é apenas o espaço talvez cheio como está ou até
mesmo vazio!
Será vovó?
Ah, tudo volta ao normal, voltam tudo, voltam todos!
Volta o cheiro da primavera, o cheiro da água, as flores, as
frutas, os pássaros, nascimento, crescimento, envelhecimento...
THE END.
Toda fábula traz uma moral da história, algo que justifique
as palavras, porém esse fragmento não traz consigo moral alguma, nada que
justifique, é apenas o que é.
Um homem pode ser intelectualmente muito “fraco”, incapaz de
colocar uma chave na fechadura, muito menos de entender as leis de movimento
newtonianas, totalmente incapaz de compreender o mundo como conceitos, e, no
entanto, ser plenamente apto, e de fato ter talento, para entender o mundo como
concretude, como “símbolos”. Esse é o outro lado, o outro lado quase sublime
das criaturas singulares, dos talentos simplórios.
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