sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

texto de Jessiara Menezes Lorena


Processo por vias

O mundo dessas pessoas é vívido, intenso, detalhado e, contudo, simples. O grupo criou uma relação de confiança e troca muito grande e isso abriu caminhos para que tudo o que acontecesse ali fosse embasado por muito trabalho e generosidade. Vejo muitas pessoas, de maneiras muito bizarras e elas me assustam. Uma espécie de inversão, subversão, natural das coisas. Aos poucos foi ganhando forma e se tornando um ritual nosso. Vejo um som, um ruído, uma música em cada pessoa diferente. É o que faz a realidade real, viva, pessoal e significativa. Em roda, todos juntos. Vejo raramente um som esvair dela e isso me deixa confusa. A personalidade, identidade e humanidade essenciais, o ser da criatura lesada, é preservado. Ganha-se o espaço, muitos saltos e corridas. Outra emana um som tão triste. Ele carece de abstrações unificadoras, mas é vivenciado como uma realidade extraordinariamente rica, profunda e concreta. Gradativamente faz a passagem e concentra a energia no centro. É como se o mundo parasse e eu ficasse no centro de uma arena. Oi? Eles jamais conheceram o abstrato. David Bowie. Aos poucos tenho a sensação de recuperar minhas reminiscências nem que seja por alguns segundos. Caiu água, por favor passa o pano. Surpreendemo-nos adentrando um reino de fascinação e paradoxo, todo centralizado na ambiguidade do “concreto”. Você precisa traçar um plano e sair daqui. Os sons ficam cada vez mais perto, mais fortes, e as pessoas perdem todo esse caráter de bicho que até então admiti para elas. She is hot. Ou pode restringir o possuidor (ou possuído) a detalhes insignificantes. O que vocês verão agora se trata de uma cena grotesca. E é por meio dos outros que nossa conversa se estabelece. A compensação da Natureza pela deficiência no conceitual e no abstrato podem assumir direções opostas. Somos incapazes de notar alguma coisa porque ela está sempre diante de nossos olhos. Comecei a me dar conta de que muito dos sons que via eram da minha cabeça. De interesse muito maior, porém, muito mais humano, muito mais comovente, muito mais “real”. Veja o mundo parecia dizer, que lindo é. Às vezes não quero, mas eles furam meu espaço como se quisessem me dizer coisas. Ele nos impele de imediato para o estético, o dramático, o cômico, o simbólico, todo o mundo vasto e profundo da arte e do espírito. Vocês precisam crer, é só pular. Contudo, pode-se dizer, eles são extraordinários e atípicos.






Jessiara Menezes Lorena

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