sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

texto de Juliana do Espírito Santo


Antes do procedimento:
Você deve estar com o estômago vazio, em jejum, antes do exame.
Sinta-se à vontade para retirar peças de roupa ou acessórios que eventualmente possam incomodá-lo, como óculos, dentadura, gravata, paletó, ou joias.
Um spray anestésico será espirrado em sua garganta, para facilitar a passagem, e para que possa relaxar.
Evite engolir a saliva durante o exame. Apenas deixe o aparelho passar lentamente pela garganta.
O tubo é comprido, fino e flexível e possui uma lâmpada e uma câmera de vídeo minúscula em sua ponta. A câmera transmite a imagem para um monitor.
Preparem-se: É chegada a hora de ver as mulheres, os homens, e os seus bichos.
Nosso trajeto se inicia pela boca. Vemos lábios, língua, dentes, palato, úvula, amígdalas... O ambiente é húmido e insalubre. Delicadamente, cuidadosamente, vagarosamente nossa câmera captura alguns sons e imagens: Uma mulher com a cabeça ruidosa e uma bela canção na estação de rádio “Minhas músicas Irlandesas”. Uma dose de água, e células capilares em constante agitação. Alguns segundos depois, nossa câmera detecta um tremor: Um Deus impessoal, trajado de fogo e chapéu se levanta; as fervorosas almas ao seu redor escutam os seus dizeres. Amém, Glória, Larôie, Eparreia oiá! Glória! Glória! Alô? Oi? Alô? Alguma conexão?
A cabeça quase explode.
Vagarosamente, cuidadosamente, cautelosamente, sutilmente nossa câmera continua seu trajeto passando pelo esôfago- uma atiradora de facas tenta impedir nosso caminho nesta parte. Nossa câmera teve alguns problemas neste canal, e entre os nervos é possível visualizar uma criatura estranha, e mais três elementos que não nos parecem possível nominar. Ouvimos ruídos de ratos também, mas não é possível ser preciso neste dado.
Uma série de contrações involuntárias nos permite continuar. Caminhamos com nossa câmera até o lado esquerdo da cavidade abdominal e abaixo das últimas costelas encontramos o estômago- estamos quase no destino de nosso trajeto. A região parece ter sido sedada em demasia. Algo está errado. Uma mulher parece estar sonhando, ou então, vemos de verdade os acontecimentos que se seguem: uma tarada, gritos, assobios, estalos, transformação, macacos, e um homem morto e estilhaçado.
Atenção senhoras e senhores, chegamos finalmente ao duodeno. Aqui está nossa úlcera. A imagem capturada na câmera é de sangramento e perfurações no local, pois uma mulher vomita pessoas initerruptamente. Não se sabe onde ela está. O sangramento no local é excessivo, há gemidos de dor e feições de prostração por toda parte.
Atenção. Atenção. Atenção.
Perdemos o controle aqui.
Atenção.
 A câmera se obstruiu em uma das pregas.  Perdemos a imagem.

 OBS: Você será observado até o efeito da medicação desaparecer. Você pode ficar com a garganta dolorida e inchada. Depois do procedimento recomenda-se que você seja acompanhado de volta para casa.


Juliana do Espírito Santo 

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