sábado, 18 de abril de 2015

Londrina em Cena: Um discurso para a minha avó

"Um discurso para a minha avó" no Londrina em Cena do Sesc Cadeião Cultural, dias 24 e 25 de abril, às 20 horas!!!


Um discurso para a minha avó








Juliana do Espírito Santo - Estúpida Cia. de Teatro - Londrina PR
50 minutos | 16 anos
Dias 24 (sex.) e 25 (sáb.) de abril de 2015, 20h na Sala de Espetáculos.
Investimento: R$20,00 (estudantes e idosos acima de 60 anos pagam meia).
*** Ingresso cortesia para usuários do Sesc categoria comerciário e dependente, mediante apresentação do
Cartão Cliente Sesc atualizado e válido.



Ficha Técnica


Direção, atuação e dramaturgia: Juliana do Espírito Santo 
Produção Executiva: T.O.U.- Teatro
Produção Local: Rafaela Solé 
Desenho de luz: Camila Fontes e Guilherme Mantovani 
Sonoplastia: Ércole Martinele e Juliana do Espírito Santo 
Operação de som e de luz: Lucas de Almeida Pinheiro


** Créditos da foto: Camila Fontes



Sinopse


Uma mulher cava um buraco 
Na parede carcomida 
A ossatura relampeja agonia 
O molhado das infiltrações fumega o corpo da mulher 
Ali começa a sua busca




O espetáculo "Um discurso para a minha avó" nasce a partir da vontade de entender as tensões entre a lembrança e o esquecimento, trabalhadas a partir de dois pontos específicos que são interligados: a lembrança de uma velha, D. Maria, e a de sua casa. Este trabalho se assume a partir do reconhecimento da incompreensão do passado e do desconhecimento do discurso de seus sujeitos e de suas dores, pois nesta investida encontra-se em primeira instância a fala que foi coibida, usurpada, e selada pela vida, e que por isto não perdurou para as próximas gerações. “Um discurso para minha avó”, portanto, é a invenção do timbre, do acento, ou do alcance de uma voz desterrada. A voz que migrou por toda vida pode quem sabe aqui descansar em alguma boca.


*** Os ingressos podem ser adquiridos antecipadamente no Sesc Cadeião Cultural, Rua Sergipe nº 52, Centro, Londrina-PR.

PUBLICAÇÕES

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Texto de Heloisa Bauab

O palco funcionando como extensão espaço-temporal do pensamento. Não da maneira como se deu no teatro expressionista, na extroversão de sentimentos de um “eu” tomado em plena crise. O palco, sim, tentando mimetizar o próprio funcionamento do cérebro e dando lugar a estados  alterados do ser. Essa foi a proposta de Thais D´Abronzo que trouxe para seu grupo os relatos clínicos do neurocientista Oliver Sacks. Este fala de pessoas com alguma deficiência neurológica e mostra sua luta corajosa para tornar a vida possível apesar de seu mal: todas essas pessoas  estão invariavelmente empenhadas em obter a cura, ou ao menos, a atenuação de seu sofrimento, ou então alguma forma de acomodação à chamada “vida normal”. E meu trabalho foi o de escrever certos textos para determinadas cenas, às vezes apenas adaptando o próprio texto de Sacks ou então sugerindo um conhecido fragmento de Beckett. Pude observar o trabalho visceral e extenuante dos atores e atrizes conduzidos pela mão decidida e exigente de Thais sempre os desafiando para que se superassem a cada ensaio, em todos os momentos (confesso que às vezes até tive pena deles!) Colocar-se integralmente no trabalho, concentrar todas as forças, selar um firme compromisso com todos os elementos do grupo, são estes os aspectos éticos de um estilo de trabalho no qual tive o privilégio e o prazer em participar.


Heloisa Bauab


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

texto-esquema de Guilherme Mantovani


texto de Mariana Pinhata


Era uma vez uma criatura sublime que vivia em uma casca grotesca. Gostava de observar a natureza, brincava com os pássaros (que dela, tinham medo), sentir o perfume das flores, era uma poesia viva, CONCRETA.
Capinha – Ela está em algum lugar, pra mim, pra eu poder brincar. É só observá-la um pouquinho, pegá-la com toda a delicadeza que eu posso ter e muito cuidado pra não estragar, pois essa capinha é extremamente delicada e, nada de errado pode acontecer... Mas eu sou errada, quer dizer... CUIDADO!
Agora, basta amarrar no pescoço e VOAR!
Observe, ela tem flores, é macia e gostosa, tem uma textura leve, leve demais!
Ahhhhhh, eu vou flutuarr.... não vou.. sou grotesca, grande e gorda mas eu danço!
Eu danço até muito bem ...
Tem alguém falando alguma coisa,  eu ouço algo além dos pássaros, da água... uma voz...lá de longe ou talvez não tão longe assim, SIM! Tem alguém falando alg...
RETARDADA, DÉBIL MENTAL, RIDÍCULA, TOLA, ESTÚPIDA!
PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII (aparelho de hospital)
Sinto uma fenda no espaço, um momento de “desaparecimento espiritual” onde o que fica é apenas o espaço talvez cheio como está ou até mesmo vazio!
Será vovó?
Ah, tudo volta ao normal, voltam tudo, voltam todos!
Volta o cheiro da primavera, o cheiro da água, as flores, as frutas, os pássaros, nascimento, crescimento, envelhecimento...
THE END.
Toda fábula traz uma moral da história, algo que justifique as palavras, porém esse fragmento não traz consigo moral alguma, nada que justifique, é apenas o que é.
Um homem pode ser intelectualmente muito “fraco”, incapaz de colocar uma chave na fechadura, muito menos de entender as leis de movimento newtonianas, totalmente incapaz de compreender o mundo como conceitos, e, no entanto, ser plenamente apto, e de fato ter talento, para entender o mundo como concretude, como “símbolos”. Esse é o outro lado, o outro lado quase sublime das criaturas singulares, dos talentos simplórios.

 Mariana Pinhata

texto de Bianca Beneduzi


Tiques de pensamento
- excesso de energia nervosa e uma grande produção de atitudes estranhas.
- abrir caminhos inesperados advindos da necessidade da canalização dessa energia.
- turbilhão, potência.
- caos da quase ação: desafio de encontrar onde estão alojados os apoios físicos e afetivos de um trabalho excessivamente sensível.
- processo convulsivo, impulsos de quebra e rompimento de padrões, combate e conflito.
- espelho oposto: desnudamento de uma figura oculta, escavação, desmembramento, aprofundar-se (ressonância involuntária).
- dinâmica que ultrapassa as barreiras do exercício e do corpo, criando energia que emerge do grupo como um coração pulsante.
- fisicamente o trabalho é muito intenso. Sinto meu corpo rasgar-se por dentro, fazendo mover engrenagens internas.
- os movimentos do grupo são como linhas que atravessam o corpo e o espaço, entrando e saindo por todos os lados, sustentando uma energia muito potente deste encontro.
- a força do grupo é tão potente que sem ela é como ser atravessada pelo vazio, uma ausência de movimento, sobra de espaço interno.
- o vazio, por outro lado, em determinados momentos, ganha espaço interno, espremendo movimentos escondidos, fazendo-os sair. O espaço se inverte de dentro para fora.
- o que move o sentido?
- nunca vai parar, soco de dentro para fora.
- ato de colocar-se inteiramente no presente, na proposta a ser trabalhada, jato de sensibilidade, habilidades, confusão de sistemas, impulsos que redefinem a pessoa.
- ação conjunta: memória, impulso, conhecimento e ato.
- Impulso e ação são coexistentes: o corpo desaparece, queima, e o espectador vê uma série de impulsos visíveis.

- definição revisitada de Montagem: a técnica de combinação de elementos em uma única composição pictórica proveniente de várias fontes, como partes de fotografias diferentes [imagens] ou fragmentos de impressão [impressões corporais]. Elementos que juntos estão interligados originalmente, mas o processo permite a cada elemento reter [respeito] sua identidade separada, como um espaço de individualidade e multiplicidade dentro da composição.
- Acredito no olhar. A contemplação é igualmente repleta de excessos uma vez que insistimos em ver alguma coisa. O mundo dos excessos exige um prolongamento do olhar para além daquilo que é aparentemente necessário, ou representa equilíbrio e estabilidade. Entre paradoxos de normalidade e aberração, o ponto de partida estará sempre nós, somos parte tanto em um, quanto no outro. O êxtase está presente em ambos. Sentir-se intensamente bem é perigoso, uma vez, que o que se sente em seguida, ou qualquer próximo passo arrisca a possibilidade de continuidade. È perigoso porque são assustadoras a perda e a brevidade.


Bianca Beneduzi

texto de Débora Mille


O mago revela-se para iniciar seu número.  Aqui e ali pontos de luz e som explodem, como pequenos fogos de artificio.
Ele rege cada um destes pequenos surtos de irrealidade.
Alucinações.
Delírios oníricos.
Pane.
Como você foi parar aí na minha cabeça?
Para além de formas palatáveis, digeríveis. Camadas de sentido se sobrepõem. Entre elas: o horror.
A visão científica contrastando com a visão humana. O corpo dissecado, as vísceras expostas. Demasiadamente humano. Demasiadamente bicho.
O animalesco em si, manifesta-se em sutilezas entre as energias distintas. Metamorfose. Horrendas maravilhas a dançar, a cortar o espaço. Animais acossados em seu próprio habitat, presos nos limites de sua própria carne. À espreita para o momento do ataque. De trespassar estas barreiras.
O eu transpondo as barreiras do físico e indo além desvelando o invisível. O que não está ali, mas também está. Quase se pode tocar o intangível.

Débora Mille

texto de Jessiara Menezes Lorena


Processo por vias

O mundo dessas pessoas é vívido, intenso, detalhado e, contudo, simples. O grupo criou uma relação de confiança e troca muito grande e isso abriu caminhos para que tudo o que acontecesse ali fosse embasado por muito trabalho e generosidade. Vejo muitas pessoas, de maneiras muito bizarras e elas me assustam. Uma espécie de inversão, subversão, natural das coisas. Aos poucos foi ganhando forma e se tornando um ritual nosso. Vejo um som, um ruído, uma música em cada pessoa diferente. É o que faz a realidade real, viva, pessoal e significativa. Em roda, todos juntos. Vejo raramente um som esvair dela e isso me deixa confusa. A personalidade, identidade e humanidade essenciais, o ser da criatura lesada, é preservado. Ganha-se o espaço, muitos saltos e corridas. Outra emana um som tão triste. Ele carece de abstrações unificadoras, mas é vivenciado como uma realidade extraordinariamente rica, profunda e concreta. Gradativamente faz a passagem e concentra a energia no centro. É como se o mundo parasse e eu ficasse no centro de uma arena. Oi? Eles jamais conheceram o abstrato. David Bowie. Aos poucos tenho a sensação de recuperar minhas reminiscências nem que seja por alguns segundos. Caiu água, por favor passa o pano. Surpreendemo-nos adentrando um reino de fascinação e paradoxo, todo centralizado na ambiguidade do “concreto”. Você precisa traçar um plano e sair daqui. Os sons ficam cada vez mais perto, mais fortes, e as pessoas perdem todo esse caráter de bicho que até então admiti para elas. She is hot. Ou pode restringir o possuidor (ou possuído) a detalhes insignificantes. O que vocês verão agora se trata de uma cena grotesca. E é por meio dos outros que nossa conversa se estabelece. A compensação da Natureza pela deficiência no conceitual e no abstrato podem assumir direções opostas. Somos incapazes de notar alguma coisa porque ela está sempre diante de nossos olhos. Comecei a me dar conta de que muito dos sons que via eram da minha cabeça. De interesse muito maior, porém, muito mais humano, muito mais comovente, muito mais “real”. Veja o mundo parecia dizer, que lindo é. Às vezes não quero, mas eles furam meu espaço como se quisessem me dizer coisas. Ele nos impele de imediato para o estético, o dramático, o cômico, o simbólico, todo o mundo vasto e profundo da arte e do espírito. Vocês precisam crer, é só pular. Contudo, pode-se dizer, eles são extraordinários e atípicos.






Jessiara Menezes Lorena