sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

texto-esquema de Guilherme Mantovani


texto de Mariana Pinhata


Era uma vez uma criatura sublime que vivia em uma casca grotesca. Gostava de observar a natureza, brincava com os pássaros (que dela, tinham medo), sentir o perfume das flores, era uma poesia viva, CONCRETA.
Capinha – Ela está em algum lugar, pra mim, pra eu poder brincar. É só observá-la um pouquinho, pegá-la com toda a delicadeza que eu posso ter e muito cuidado pra não estragar, pois essa capinha é extremamente delicada e, nada de errado pode acontecer... Mas eu sou errada, quer dizer... CUIDADO!
Agora, basta amarrar no pescoço e VOAR!
Observe, ela tem flores, é macia e gostosa, tem uma textura leve, leve demais!
Ahhhhhh, eu vou flutuarr.... não vou.. sou grotesca, grande e gorda mas eu danço!
Eu danço até muito bem ...
Tem alguém falando alguma coisa,  eu ouço algo além dos pássaros, da água... uma voz...lá de longe ou talvez não tão longe assim, SIM! Tem alguém falando alg...
RETARDADA, DÉBIL MENTAL, RIDÍCULA, TOLA, ESTÚPIDA!
PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII (aparelho de hospital)
Sinto uma fenda no espaço, um momento de “desaparecimento espiritual” onde o que fica é apenas o espaço talvez cheio como está ou até mesmo vazio!
Será vovó?
Ah, tudo volta ao normal, voltam tudo, voltam todos!
Volta o cheiro da primavera, o cheiro da água, as flores, as frutas, os pássaros, nascimento, crescimento, envelhecimento...
THE END.
Toda fábula traz uma moral da história, algo que justifique as palavras, porém esse fragmento não traz consigo moral alguma, nada que justifique, é apenas o que é.
Um homem pode ser intelectualmente muito “fraco”, incapaz de colocar uma chave na fechadura, muito menos de entender as leis de movimento newtonianas, totalmente incapaz de compreender o mundo como conceitos, e, no entanto, ser plenamente apto, e de fato ter talento, para entender o mundo como concretude, como “símbolos”. Esse é o outro lado, o outro lado quase sublime das criaturas singulares, dos talentos simplórios.

 Mariana Pinhata

texto de Bianca Beneduzi


Tiques de pensamento
- excesso de energia nervosa e uma grande produção de atitudes estranhas.
- abrir caminhos inesperados advindos da necessidade da canalização dessa energia.
- turbilhão, potência.
- caos da quase ação: desafio de encontrar onde estão alojados os apoios físicos e afetivos de um trabalho excessivamente sensível.
- processo convulsivo, impulsos de quebra e rompimento de padrões, combate e conflito.
- espelho oposto: desnudamento de uma figura oculta, escavação, desmembramento, aprofundar-se (ressonância involuntária).
- dinâmica que ultrapassa as barreiras do exercício e do corpo, criando energia que emerge do grupo como um coração pulsante.
- fisicamente o trabalho é muito intenso. Sinto meu corpo rasgar-se por dentro, fazendo mover engrenagens internas.
- os movimentos do grupo são como linhas que atravessam o corpo e o espaço, entrando e saindo por todos os lados, sustentando uma energia muito potente deste encontro.
- a força do grupo é tão potente que sem ela é como ser atravessada pelo vazio, uma ausência de movimento, sobra de espaço interno.
- o vazio, por outro lado, em determinados momentos, ganha espaço interno, espremendo movimentos escondidos, fazendo-os sair. O espaço se inverte de dentro para fora.
- o que move o sentido?
- nunca vai parar, soco de dentro para fora.
- ato de colocar-se inteiramente no presente, na proposta a ser trabalhada, jato de sensibilidade, habilidades, confusão de sistemas, impulsos que redefinem a pessoa.
- ação conjunta: memória, impulso, conhecimento e ato.
- Impulso e ação são coexistentes: o corpo desaparece, queima, e o espectador vê uma série de impulsos visíveis.

- definição revisitada de Montagem: a técnica de combinação de elementos em uma única composição pictórica proveniente de várias fontes, como partes de fotografias diferentes [imagens] ou fragmentos de impressão [impressões corporais]. Elementos que juntos estão interligados originalmente, mas o processo permite a cada elemento reter [respeito] sua identidade separada, como um espaço de individualidade e multiplicidade dentro da composição.
- Acredito no olhar. A contemplação é igualmente repleta de excessos uma vez que insistimos em ver alguma coisa. O mundo dos excessos exige um prolongamento do olhar para além daquilo que é aparentemente necessário, ou representa equilíbrio e estabilidade. Entre paradoxos de normalidade e aberração, o ponto de partida estará sempre nós, somos parte tanto em um, quanto no outro. O êxtase está presente em ambos. Sentir-se intensamente bem é perigoso, uma vez, que o que se sente em seguida, ou qualquer próximo passo arrisca a possibilidade de continuidade. È perigoso porque são assustadoras a perda e a brevidade.


Bianca Beneduzi

texto de Débora Mille


O mago revela-se para iniciar seu número.  Aqui e ali pontos de luz e som explodem, como pequenos fogos de artificio.
Ele rege cada um destes pequenos surtos de irrealidade.
Alucinações.
Delírios oníricos.
Pane.
Como você foi parar aí na minha cabeça?
Para além de formas palatáveis, digeríveis. Camadas de sentido se sobrepõem. Entre elas: o horror.
A visão científica contrastando com a visão humana. O corpo dissecado, as vísceras expostas. Demasiadamente humano. Demasiadamente bicho.
O animalesco em si, manifesta-se em sutilezas entre as energias distintas. Metamorfose. Horrendas maravilhas a dançar, a cortar o espaço. Animais acossados em seu próprio habitat, presos nos limites de sua própria carne. À espreita para o momento do ataque. De trespassar estas barreiras.
O eu transpondo as barreiras do físico e indo além desvelando o invisível. O que não está ali, mas também está. Quase se pode tocar o intangível.

Débora Mille

texto de Jessiara Menezes Lorena


Processo por vias

O mundo dessas pessoas é vívido, intenso, detalhado e, contudo, simples. O grupo criou uma relação de confiança e troca muito grande e isso abriu caminhos para que tudo o que acontecesse ali fosse embasado por muito trabalho e generosidade. Vejo muitas pessoas, de maneiras muito bizarras e elas me assustam. Uma espécie de inversão, subversão, natural das coisas. Aos poucos foi ganhando forma e se tornando um ritual nosso. Vejo um som, um ruído, uma música em cada pessoa diferente. É o que faz a realidade real, viva, pessoal e significativa. Em roda, todos juntos. Vejo raramente um som esvair dela e isso me deixa confusa. A personalidade, identidade e humanidade essenciais, o ser da criatura lesada, é preservado. Ganha-se o espaço, muitos saltos e corridas. Outra emana um som tão triste. Ele carece de abstrações unificadoras, mas é vivenciado como uma realidade extraordinariamente rica, profunda e concreta. Gradativamente faz a passagem e concentra a energia no centro. É como se o mundo parasse e eu ficasse no centro de uma arena. Oi? Eles jamais conheceram o abstrato. David Bowie. Aos poucos tenho a sensação de recuperar minhas reminiscências nem que seja por alguns segundos. Caiu água, por favor passa o pano. Surpreendemo-nos adentrando um reino de fascinação e paradoxo, todo centralizado na ambiguidade do “concreto”. Você precisa traçar um plano e sair daqui. Os sons ficam cada vez mais perto, mais fortes, e as pessoas perdem todo esse caráter de bicho que até então admiti para elas. She is hot. Ou pode restringir o possuidor (ou possuído) a detalhes insignificantes. O que vocês verão agora se trata de uma cena grotesca. E é por meio dos outros que nossa conversa se estabelece. A compensação da Natureza pela deficiência no conceitual e no abstrato podem assumir direções opostas. Somos incapazes de notar alguma coisa porque ela está sempre diante de nossos olhos. Comecei a me dar conta de que muito dos sons que via eram da minha cabeça. De interesse muito maior, porém, muito mais humano, muito mais comovente, muito mais “real”. Veja o mundo parecia dizer, que lindo é. Às vezes não quero, mas eles furam meu espaço como se quisessem me dizer coisas. Ele nos impele de imediato para o estético, o dramático, o cômico, o simbólico, todo o mundo vasto e profundo da arte e do espírito. Vocês precisam crer, é só pular. Contudo, pode-se dizer, eles são extraordinários e atípicos.






Jessiara Menezes Lorena

texto de Juliana do Espírito Santo


Antes do procedimento:
Você deve estar com o estômago vazio, em jejum, antes do exame.
Sinta-se à vontade para retirar peças de roupa ou acessórios que eventualmente possam incomodá-lo, como óculos, dentadura, gravata, paletó, ou joias.
Um spray anestésico será espirrado em sua garganta, para facilitar a passagem, e para que possa relaxar.
Evite engolir a saliva durante o exame. Apenas deixe o aparelho passar lentamente pela garganta.
O tubo é comprido, fino e flexível e possui uma lâmpada e uma câmera de vídeo minúscula em sua ponta. A câmera transmite a imagem para um monitor.
Preparem-se: É chegada a hora de ver as mulheres, os homens, e os seus bichos.
Nosso trajeto se inicia pela boca. Vemos lábios, língua, dentes, palato, úvula, amígdalas... O ambiente é húmido e insalubre. Delicadamente, cuidadosamente, vagarosamente nossa câmera captura alguns sons e imagens: Uma mulher com a cabeça ruidosa e uma bela canção na estação de rádio “Minhas músicas Irlandesas”. Uma dose de água, e células capilares em constante agitação. Alguns segundos depois, nossa câmera detecta um tremor: Um Deus impessoal, trajado de fogo e chapéu se levanta; as fervorosas almas ao seu redor escutam os seus dizeres. Amém, Glória, Larôie, Eparreia oiá! Glória! Glória! Alô? Oi? Alô? Alguma conexão?
A cabeça quase explode.
Vagarosamente, cuidadosamente, cautelosamente, sutilmente nossa câmera continua seu trajeto passando pelo esôfago- uma atiradora de facas tenta impedir nosso caminho nesta parte. Nossa câmera teve alguns problemas neste canal, e entre os nervos é possível visualizar uma criatura estranha, e mais três elementos que não nos parecem possível nominar. Ouvimos ruídos de ratos também, mas não é possível ser preciso neste dado.
Uma série de contrações involuntárias nos permite continuar. Caminhamos com nossa câmera até o lado esquerdo da cavidade abdominal e abaixo das últimas costelas encontramos o estômago- estamos quase no destino de nosso trajeto. A região parece ter sido sedada em demasia. Algo está errado. Uma mulher parece estar sonhando, ou então, vemos de verdade os acontecimentos que se seguem: uma tarada, gritos, assobios, estalos, transformação, macacos, e um homem morto e estilhaçado.
Atenção senhoras e senhores, chegamos finalmente ao duodeno. Aqui está nossa úlcera. A imagem capturada na câmera é de sangramento e perfurações no local, pois uma mulher vomita pessoas initerruptamente. Não se sabe onde ela está. O sangramento no local é excessivo, há gemidos de dor e feições de prostração por toda parte.
Atenção. Atenção. Atenção.
Perdemos o controle aqui.
Atenção.
 A câmera se obstruiu em uma das pregas.  Perdemos a imagem.

 OBS: Você será observado até o efeito da medicação desaparecer. Você pode ficar com a garganta dolorida e inchada. Depois do procedimento recomenda-se que você seja acompanhado de volta para casa.


Juliana do Espírito Santo 

texto de Kátia Maffi


Pequeno discurso que se mistura ao trajeto




Creiamos senhoras e senhores que aqui, presentes, estão pessoas, que se abriram, como que em uma dissecação. E muito ao contrário, não estão mortos. A vida aqui é o primeiro requisito. Suas potências e suas verdades. Os artifícios são meras ferramentas que o próprio corpo utiliza para que construa seu mundo. De acordo com Oliver Sacks, temos sempre dois universos de discurso – você pode chamá-los “físico” e “fenomênico”, ou como quiser -, um relativo às questões de estrutura quantitativa e formal, o outro às qualidades que constituem um “mundo”.
O mundo não gira em torno da normalidade, o nivelamento está fora de questão. Cada corpo, cada camada é elementar. A diversidade de figuras aumenta a oscilação entre ficção e realidade. Estas oposições promovem a violência que é o lascar de uma rocha, de uma epilepsia, dos músculos que agem sem o controle intelectual, das histórias que escolhem as pessoas, das doenças que possuem pessoas... Esse mundo se constitui de fragmentos de pequenas panes e da sutil violência que é conhecer o humano em todos os seus aspectos. 

Kátia Maffi

texto de Manuel Arruda


HOMENÁGEM À LOUCURA/AO DEVANEIO/AOS DESESPERADOS/AOS EXQUISOFRÊNICOS/AOS IMBECÍS/AOS ESTÚPIDOS/AOS DESGRAÇADOS/AO ESCARRO/A FOME/ A LIBIDO/AO ESPÍRITO/SILÊNCIO.
RESPIRE.
Convido a todos para uma floresta que a primeira vista possa parecer assustadora. A primeira vista muita coisa pode parecer assustador, no entanto, basta um pouco mais de envolvimento para que outras faces escondidas se façam à mostra.
ESPIE/ESCUTE/ESCONDA/GRITE/CHORE/RIA/REZA
RESPIRE.
HÁ VERBOS QUE ENCONTRO AQUI. HÁ MONSTROS NESTA FLORESTA. HÁ OUTRAS POSSIBILIDADES DE VIDA ENVOLTA DOS GALHOS SECOS.
Sem que se perceba ela VIU um grito que pairava no ar e mudava de cor. Por vezes muito rapidamente, segundo a SEGUNDO. Em outras era lento e COMPRIDO. Imagens esquisitas cobrem toda a sala. Feias. Esdrúxulas. Anormais. Não há um único viés para que elas se criem. Há diversos, há diversas formas de ser e criar imagens. AQUI experimento outra.
[...] ela pegou o vestido e a mão torta não segurava como deveria ela engolia com as próprias mãos quase tudo o que tocava um amor tão terrível corta o que se encontra pela frente não há mais o desejo de não ser o que se é apenas se é em pleno desejo
DESEJO/SALA ESCURA/FACA DE CORTE AFIADO/ELA REPETE 3 VEZES O QUE VOCÊ FAZ/A OUTRA ESCONDE/AQUELA URGE COMO UM ANIMAL/POBRE SEDUTOR/ [DESEJO] DE VOAR
respire mais uma vez por favor. Pode ter ESTOURADO um vaso sanguíneo no seu cérebro.
Os galhos secos movem a lugares que não se pode explicar com a vista suja, muito menos aquela [vista] engessada, ou a outra que imprime o que vê no que vê. Creio ser a sociedade uma exímia esquizofrênica. Todo processo criativo deve reconhecer sua esquizofrenia.

Manuel Arruda 

texto de Rachel Trambaioli


                       (ENTRE NÓS): A NOSSA “ALDEIA”
   Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
   Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
   Porque eu sou do tamanho do que vejo
   E não, do tamanho da minha altura...
   Nas cidades a vida é mais pequena
   Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
   Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
   Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe 
   de todo o céu,
   Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos 
   nos podem dar,
   E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
                                    Alberto Caeiro

Nosso encontro com os fantásticos relatos de Oliver Sacks aconteceu especialmente pela tentativa de trabalhá-los em suas formas, muito mais do que por uma investida em seus conteúdos.
Quando então o neurologista se afirma como um “cientista romântico”, como um médico que se preocupa e se interessa não só por doenças, mas acima de tudo por pessoas, vejo a nós, integrantes desse processo e espetáculo “estúpidos”, como “românticos artistas”, pois também trabalhamos como fatores essencialmente humanos: nosso suor, nossos olhos, ossos, pele, músculos, cabelos, dentes, salivas, trocas/relações, imaginação, mente, mas fatores estes que extrapolaram o próprio humano, acabando por se tornarem primitivos. 
Sackz se atenta para o potencial criativo que as doenças podem disparar, buscando trazer para o foco formas de vida nunca imaginadas, as quais vivem numa constante necessidade de adaptação e de encontrar outros caminhos, na maioria das vezes inusitados e inesperados. Assim nós nos portamos durante este ano: diariamente “quebrando pedras” à procura de algo que acontecesse involuntariamente: tremores que geravam, num processo vital fortíssimo, inesperadas ações. Portanto trabalhamos com potencialidades e condições extremadas que disparavam distintos humores.
Portanto “estúpidos”, a meu ver, fomos este ano a beleza monstruosa, viva, pulsante e verdadeira que destrói uma possível descrença em humanos que de tão humanos passam a ser primitivos. Beleza esta que se tornava mais visível quanto mais presentificadas fossem nossas relações afetuosas, de cumplicidade e cuidado, no espaço do trabalho diário. Por isso, iniciei este modesto relato falando de uma “aldeia”, que para mim se concretiza no que criamos: um local seguro para nos dissecarmos, uns aos outros. E, por isso, finalizo com palavras de G.K.Chesterton (apud SACKS, 2006, p.16):

A ciência é uma grande coisa quando está a nossa disposição; no seu verdadeiro sentido, é uma das palavras mais formidáveis do mundo. Mas o que pretendem esses homens, em nove entre dez casos, ao pronunciá-la hoje? Ao dizer que a detecção é uma ciência? Ao dizer que a criminologia é uma ciência? Pretendem colocar-se no exterior de um homem e estuda-lo como se fosse um inseto gigante, sob o que chamariam de luz severa e imparcial – e que eu chamaria morta e desumanizada. Pretendem distanciar-se dele, como se ele fosse um remoto monstro pré-histórico, e fitar a forma de seu “crânio criminoso” como se fosse uma espécie de sinistra excrescência, como o chifre de um rinoceronte. Quando o cientista fala de um tipo, nunca está se referindo a si mesmo, mas a seu vizinho, provavelmente mais pobre. Não nego que a luz severa possa ser benéfica às vezes, embora, em certo sentido, ela seja o oposto da ciência. Longe de converter-se em conhecimento, ela é a supressão do que sabemos. É tratar um amigo como estranho e fazer com que algo familiar pareça remoto e misterioso. É como dizer que o homem carrega uma probóscide entre os olhos e que cai num estado de insensibilidade a cada 24 horas. Bem, o que você chama de “segredo” é exatamente o contrário. Não tento me colocar do lado de fora do homem. Tento me colocar no seu interior.

Obrigada a todos pelas possibilidades de encontros (entre nós)! 

Referência:
SACKS, O. Um antropólogo em Marte : sete histórias paradoxais. Trad. Bernardo Carvalho.  São Paulo; Companhia das letras, 2006.                                       

Rachel Trambaioli  

texto de Renata Santana


Cuidado!
Pessoas alimentadas pelas histórias de Oliver Sacks.
Histórias e pessoas reais. Condições estranhas, existências bizarras.

Desequilíbrio.
Pedras e janelas emperradas disparam ações.
Limitações. Condições singulares. Imobilidade. Tremores. Movimentos súbitos e involuntários. Desejos não contidos. Impulsos.

Descontrole.
O processo se revela, a transformação acontece.
O cérebro não pára.
O corpo pode entrar em colapso a qualquer instante.
Figuras estranhas se exibem diante de nossos olhos, transformadas por suas entranhas, suores, dores, veias, sangue.
Elas estão aqui, vivas, acuadas, preparadas para o bote.

A qualquer momento algo vai acontecer...

Respire fundo e se prepare, o mergulho será intenso.

(Em caso de pane, máscaras de oxigênio poderão cair sobre suas cabeças.)


Renata Santana

texto de Vitória Andrade


Aqui se entende que não há representações e muito menos personagens, apresentam-se figuras distintas com condições específicas que desencadeiam suas ações. A ideia de representação se rompe na verticalidade de cada detalhe, o sujeito se revela por meio do como, de suas veias, seus olhos, seu sangue, seu suor.
A animalidade presente no humano, ou o humano que se revela a partir de uma figura animalesca, desponta características peculiares de cada individuo e o modo como este se conecta com cada energia do espaço. Assim como os pacientes do Dr. Sacks revelavam as mais variadas preciosidades por trás de doenças complexas e comportamentos muitas vezes incompreendidos.
As relações são das simples às mais estranhas. Um sonho, um chicote, um macaco. O ouvir, o contar, o despertar. Lutas, choques, conflitos. Visões humanas se contrastam com as neurológicas. O que realmente acontece em uma pane cerebral?
A construção de cada ser único se revela e se mantém dentro de um todo orgânico, de horror, doença, mas, sobretudo humanidade.

Vitória Andrade